Artigos
Insegurança pública
Data: 17/10/2006
Vitor Monteiro de Castro
Em 15 dias tivemos cinco crianças e jovens mortos em favelas do Rio de Janeiro. Uma dela, de três anos, na favela da Maré, em pleno dia de eleição, numa ação no mínimo equivocada da Polícia Militar. O assassinato da criança gerou protestos e confusão na comunidade de Nova Holanda e mais uma vez não será constatado de onde partiu o tiro.
Nesse último domingo dia primeiro de outubro, no mesmo dia que escolhíamos nossos candidatos para diversos cargos nas eleições, a Maré (favela do Rio de Janeiro) vivenciou – e infelizmente isso vem acontecendo regularmente em espaços populares – um triste fato, a morte de uma criança de três anos, com um tiro de fuzil na barriga.
A ação policial que deflagrou no acidente (se assim podemos chamá-lo) iniciou com uma perseguição a dois homens em uma moto. Sem esperar qualquer reação dos “foragidos”, os policiais começaram a atirar na rua Principal na Nova Holanda (comunidade da Maré), cheia de eleitores e pessoas panfletando. Não deveria, então, ser nenhuma surpresa que algum dispara acertasse alguém. Essa também não é uma preocupação constante da nossa polícia.
Mas a violência não termina na morte da criança. Primeiro porque a população local se revoltou com a situação (que, diga-se, não é a primeira vez que acontece. Renan foi a quarta vítima de ações policiais em 15 dias. E no dia seguinte, mais um jovem é assassinado no Complexo do Alemão. Isso que foi “computado” pela mídia). E segundo porque os jornais tentam a todo custo sensacionalizar a situação. Pelo menos dessa vez não escutaram apenas a polícia como fonte, e ouviram também alguns moradores. O comandante da geral da PM, coronel Hudson de Aguiar afirmou à imprensa que o tiro não partiu de um policial, e que mandou periciar o projétil que atingiu o garoto.
Cinco jovens assassinados em 15 dias
No dia três de outubro, encontramos a notícia nos jornais de que as medidas para a perícia foram tomadas: as armas foram recolhidas. Porém, a análise tem que ser feita com os projéteis e como os policiais não conseguiram encontrá-los não vai ser possível realizar a perícia. Outra notícia é a morte de mais um jovem, Moisés Alves Tinim, de 16 anos no Complexo do Alemão, também por tiro de fuzil.
Se pegarmos as notícias dos últimos 15 dias, encontramos ainda notícias sobre a morte de Lohan de Souza Santos, nove anos, dia 16 de setembro de 2006, no Morro do Borel; Guilherme Custódio Morais, oito anos, dia 20 de setembro de 2006 na Favela do Guarabu, na Ilha do Governador; e Paulo Vinícius de Oliveira Chaves, sete anos, atropelado por uma viatura da Polícia Militar dia 20 de setembro, em Vigário Geral.
Assistindo a um debate sobre mídia e violência, na PUC-Rio, alguns dados foram apresentados, como o número de mortes em periferias e nas zonas “nobres” da cidade. A diferença é gritante. E demonstra uma banalização da morte e da violência nos espaços populares. Uma morte em Copacabana equivale para a mídia a aproximadamente 600 mortes na Maré, no Complexo do Alemão ou qualquer outro bairro pobre da cidade. Um dos participantes, o rapper Gaspar, do Movimento Hip Hop Luta Armada lembrou que o nome de uma garota assassinada na Tijuca virou nome de rua. Se isso abrisse uma jurisprudência e todos os assassinados nas periferias tivessem seus nomes usados em nomes de ruas, segundo ele, “não sobraria espaços para nenhuma autoridade, nem Getúlio Vargas, nem Rio Branco”. E infelizmente isso é verdade. Hoje no Rio de Janeiro morrem três jovens por dia. E a imensa maioria é preto ou pardo, pobre e morador de periferia.
Política de extermínio da pobreza
A violência que todos temem nas grandes cidades existe. Apenas esses temerosos moradores das áreas “nobres” não a conhecem. Sentem apenas medo. E se revoltam apenas se forem atingidos diretamente. Caso a violência permaneça nas favelas e periferias do Rio de Janeiro, com uma política de segurança que prega a eliminação da pobreza, tudo continua às mil maravilhas. Não à toa elegemos (?) os chamados “candidatos da bala”, que valorizam essa política de extermínio.
As mortes de crianças na Maré (01/10), outra no Complexo do Alemão (02/10), outra em Vigário Geral (20/09), outra no Borel (16/09) e outra na favela do Guarabu, na Ilha do Governador (20/09) significam simplesmente que não existe o mínimo cuidado nas ações policiais dentro dos espaços populares e que as vidas dos moradores desses locais não tem valor. É praticada uma política de extermínio, de eliminação da pobreza através da violência.
O papel da mídia
A comunicação em geral, e a imprensa em específico, tem hoje um papel importante na cobertura desses acontecimentos. A partir da década de 1990, a maioria dos jornais deixou de praticar coberturas meramente “criminais”, e passaram a tratar o tema de forma mais sóbria e cuidadosa. Porém ainda estamos longe de um tratamento ideal. Segundo pesquisa realizada pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec), ainda hoje a imprensa depende quase que exclusivamente das fontes policiais e a sociedade civil organizada, mesmo tendo uma participação fundamental no debate e encaminhamento de proposições para os problemas da segurança, encontra-se ausente como fonte jornalística. A pesquisa analisou os principais jornais do país no Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais durante os meses de maio a setembro de 2004.
Hoje a mídia usa muito pouco sua enorme capacidade para pautar um debate público consistente sobre segurança pública. A cobertura da imprensa apresenta um tratamento superficial, muito aquém da relevância social que o tema assumiu. Enquanto a mídia denuncia a gravidade da crise da segurança pública no país, abdica em grande parte do tempo, do papel de tomar a dianteira no debate sobre o tema – o que poderia motivar ações do Estado mais eficazes e abrangentes.
As vítimas dos últimos 15 dias
Lohan de Souza Santos, nove anos, morto por uma bala de fuzil na cabeça no dia 16 de setembro de 2006, no Morro do Borel.
Guilherme Custódio Morais, oito anos, morto dia 20 de setembro de 2006, por bala perdida na Favela do Guarabu, na Ilha do Governador
Paulo Vinícius de Oliveira Chaves, sete anos, morto atropelado por uma viatura da Polícia Militar, dia 20 de setembro de 2006, em Vigário Geral.
Renan da Costa Ribeiro, três anos, morto dia primeiro de outubro de 2006, com um tiro de fuzil na barriga, na comunidade de Nova Holanda na Maré.
Moisés Alves Tinim, 16 anos, morto dia dois de outubro de 2006, com um tiro de fuzil, no Morro da Esperança no Complexo do Alemão.
*Vitor Monteiro de Castro é jornalista do Observatório de Favelas do Rio de Janeiro
A ação policial que deflagrou no acidente (se assim podemos chamá-lo) iniciou com uma perseguição a dois homens em uma moto. Sem esperar qualquer reação dos “foragidos”, os policiais começaram a atirar na rua Principal na Nova Holanda (comunidade da Maré), cheia de eleitores e pessoas panfletando. Não deveria, então, ser nenhuma surpresa que algum dispara acertasse alguém. Essa também não é uma preocupação constante da nossa polícia.
Mas a violência não termina na morte da criança. Primeiro porque a população local se revoltou com a situação (que, diga-se, não é a primeira vez que acontece. Renan foi a quarta vítima de ações policiais em 15 dias. E no dia seguinte, mais um jovem é assassinado no Complexo do Alemão. Isso que foi “computado” pela mídia). E segundo porque os jornais tentam a todo custo sensacionalizar a situação. Pelo menos dessa vez não escutaram apenas a polícia como fonte, e ouviram também alguns moradores. O comandante da geral da PM, coronel Hudson de Aguiar afirmou à imprensa que o tiro não partiu de um policial, e que mandou periciar o projétil que atingiu o garoto.
Cinco jovens assassinados em 15 dias
No dia três de outubro, encontramos a notícia nos jornais de que as medidas para a perícia foram tomadas: as armas foram recolhidas. Porém, a análise tem que ser feita com os projéteis e como os policiais não conseguiram encontrá-los não vai ser possível realizar a perícia. Outra notícia é a morte de mais um jovem, Moisés Alves Tinim, de 16 anos no Complexo do Alemão, também por tiro de fuzil.
Se pegarmos as notícias dos últimos 15 dias, encontramos ainda notícias sobre a morte de Lohan de Souza Santos, nove anos, dia 16 de setembro de 2006, no Morro do Borel; Guilherme Custódio Morais, oito anos, dia 20 de setembro de 2006 na Favela do Guarabu, na Ilha do Governador; e Paulo Vinícius de Oliveira Chaves, sete anos, atropelado por uma viatura da Polícia Militar dia 20 de setembro, em Vigário Geral.
Assistindo a um debate sobre mídia e violência, na PUC-Rio, alguns dados foram apresentados, como o número de mortes em periferias e nas zonas “nobres” da cidade. A diferença é gritante. E demonstra uma banalização da morte e da violência nos espaços populares. Uma morte em Copacabana equivale para a mídia a aproximadamente 600 mortes na Maré, no Complexo do Alemão ou qualquer outro bairro pobre da cidade. Um dos participantes, o rapper Gaspar, do Movimento Hip Hop Luta Armada lembrou que o nome de uma garota assassinada na Tijuca virou nome de rua. Se isso abrisse uma jurisprudência e todos os assassinados nas periferias tivessem seus nomes usados em nomes de ruas, segundo ele, “não sobraria espaços para nenhuma autoridade, nem Getúlio Vargas, nem Rio Branco”. E infelizmente isso é verdade. Hoje no Rio de Janeiro morrem três jovens por dia. E a imensa maioria é preto ou pardo, pobre e morador de periferia.
Política de extermínio da pobreza
A violência que todos temem nas grandes cidades existe. Apenas esses temerosos moradores das áreas “nobres” não a conhecem. Sentem apenas medo. E se revoltam apenas se forem atingidos diretamente. Caso a violência permaneça nas favelas e periferias do Rio de Janeiro, com uma política de segurança que prega a eliminação da pobreza, tudo continua às mil maravilhas. Não à toa elegemos (?) os chamados “candidatos da bala”, que valorizam essa política de extermínio.
As mortes de crianças na Maré (01/10), outra no Complexo do Alemão (02/10), outra em Vigário Geral (20/09), outra no Borel (16/09) e outra na favela do Guarabu, na Ilha do Governador (20/09) significam simplesmente que não existe o mínimo cuidado nas ações policiais dentro dos espaços populares e que as vidas dos moradores desses locais não tem valor. É praticada uma política de extermínio, de eliminação da pobreza através da violência.
O papel da mídia
A comunicação em geral, e a imprensa em específico, tem hoje um papel importante na cobertura desses acontecimentos. A partir da década de 1990, a maioria dos jornais deixou de praticar coberturas meramente “criminais”, e passaram a tratar o tema de forma mais sóbria e cuidadosa. Porém ainda estamos longe de um tratamento ideal. Segundo pesquisa realizada pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec), ainda hoje a imprensa depende quase que exclusivamente das fontes policiais e a sociedade civil organizada, mesmo tendo uma participação fundamental no debate e encaminhamento de proposições para os problemas da segurança, encontra-se ausente como fonte jornalística. A pesquisa analisou os principais jornais do país no Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais durante os meses de maio a setembro de 2004.
Hoje a mídia usa muito pouco sua enorme capacidade para pautar um debate público consistente sobre segurança pública. A cobertura da imprensa apresenta um tratamento superficial, muito aquém da relevância social que o tema assumiu. Enquanto a mídia denuncia a gravidade da crise da segurança pública no país, abdica em grande parte do tempo, do papel de tomar a dianteira no debate sobre o tema – o que poderia motivar ações do Estado mais eficazes e abrangentes.
As vítimas dos últimos 15 dias
Lohan de Souza Santos, nove anos, morto por uma bala de fuzil na cabeça no dia 16 de setembro de 2006, no Morro do Borel.
Guilherme Custódio Morais, oito anos, morto dia 20 de setembro de 2006, por bala perdida na Favela do Guarabu, na Ilha do Governador
Paulo Vinícius de Oliveira Chaves, sete anos, morto atropelado por uma viatura da Polícia Militar, dia 20 de setembro de 2006, em Vigário Geral.
Renan da Costa Ribeiro, três anos, morto dia primeiro de outubro de 2006, com um tiro de fuzil na barriga, na comunidade de Nova Holanda na Maré.
Moisés Alves Tinim, 16 anos, morto dia dois de outubro de 2006, com um tiro de fuzil, no Morro da Esperança no Complexo do Alemão.
*Vitor Monteiro de Castro é jornalista do Observatório de Favelas do Rio de Janeiro
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